Bill Cunningham... RIP




Esse olhar simples e atencioso de Bill Cunningham, morto ontem aos 87 anos, vai deixar um tremendo vazio no mundo da moda. Bill era o "pai de todos" fotógrafos de street-style do mundo. Um homem de hábitos simples que, nas muitas vezes que trabalhei ao lado dele, jamais trocou uma palavra comigo. Pouco importava. Eu estava ao lado de alguém que me inspirou a tirar a ideia de fotografar gente da rua de um simples projeto pessoal para um âmbito profissional. Nos idos de 1999, numa de muitas idas a Nova York, fiz minhas primeiras fotos de rua. Eu tinha uma máquina Canon com filmes e voltei entusiasmada com o resultado de uma passeada em Greenwich Village. Ainda as guardo com carinho. Foi uma revelação. As fotos de rua real eram e são uma bola mágica para a gente entender a moda das passarelas, para pressagiar as tendências. Eu não conhecia ainda o trabalho de Bill mas, uma amiga que havia morado nos Estados Unidos, a Juliana Mercadante, me mostrou as maravilhosas páginas que Bill fazia no NYT. Foi nesse momento que eu percebi que minhas ideias e minha paixão pela moda de rua não eram novidade nenhuma. Existia Bill e fazia tempos. Aquelas páginas no NYT, publicadas por um septuagenário americano ( isso faz 17 anos) me ajudaram a seguir em frente com o ir para as ruas aqui em Paris e mostrar a maneira como as pessoas se vestiram, apesar da falta de apoio de meus amigos fotógrafos profissionais que consideravam "fotos de merda". Eu não liguei. Eu sabia que existia uma utilidade e que os leitores iriam gostar.  Fotografar gente na rua é como espiar a janela do vizinho. Um portal para o futuro. Eu sentia isso. Eu queria fazer e fiz.



A partir de 2006 eu comecei a andar pelas ruas de Paris com minha máquina e também foi o ano em que fiz minhas primeiras portas de desfiles com o olhar atento aos convidados até mais do que aos desfiles. E a partir daí comecei a cruzar frequentemente com Bill. Como eu contei lá no começo do post, ele nunca falou comigo. Ele não era de muitas palavras. O seu negócio era observar, fotografar algo que lhe interessasse com sua máquina ainda com um rolo de filmes. Bill nunca a deixou. Sua fotografia foi ultrapassada em qualidade pelas centenas de fotógrafos que chegaram após, mas seu olhar e seu comportamento nunca foram batidos. Ele não era um prepotente, não virava a cara para ninguém e nem vestia roupas de marcas que o patrocinavam. Ele nem precisava disso. Era um personagem imbatível que não precisava de mais propaganda. Seu trabalho e seu comportamento eram o encanto do mundo da moda ao qual ele se reportava. Ele vestia sempre a mesma roupa, a mesma jaqueta ( teria quantas do mesmo modelo?) azul e a calca cáqui. Ele não andava acompanhado. Chegava só. Saia só. Seu lance era entra a imagem, a descoberta da próxima moda e pronto. Nunca vi Bill em meio a patotas de fotógrafos americanos que se tornaram famosos depois dele, repetindo. Vi sempre esse sorriso terno, essa expressão de quem viveu a vida fazendo o que mais amava. Um homem que exercia sua profissão sem segundas ou terceiras intenções. O foco eram as ruas, as modas, as cores, as pessoas e de onde elas saiam tampouco importava para ele. Ele disparava sua máquina por quem tivesse algo a mostrar. Algo a ser desvendado. Bravo Bill Cunningham. Você vai fazer falta nesse circo de vaidades que se tornou a fotografia de street-style. Você abriu uma grande brecha com um trabalho lindo, mas raros ( ou inexistentes) os que tem a mesma paixão, devoção e humildade. Descanse em paz. 


PS: Na foto do abre, Bill ao lado de Carine Roitfeld em um desfile da Dior. 




Um comentário:

a poetica do prazer disse...

Maravilhosa homenagem à Bill e maravilhosa tragetória a sua, Ana Clara Garmêndia.
Muito orgulho de você.
beijos da sua mana, daniela

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