Oui, je suis Charlie... Charlie Hebdo...






Lembro bem a primeira vez que fui morta por ser jornalista. Final dos anos 90 e eu, recém-formada, tinha o sangue quente e a cabeça fervendo de ideias, características que ainda tenho até hoje em relação ao trato da minha profissão. Volto logo para essa morte, antes preciso explicar uns detalhes. 
Vamos lá: sou uma jornalista por acaso. Seu for acreditar em destino: ele me escolheu. Quando saí de casa, da pequena Bagé no Pampa Gaúcho, aos 17 anos, para estudar em uma grande cidade, ouvi meu pai dizer: "jornalismo é furada". Naquela época, era um sonho ir morar sozinha e não importava a faculdade que eu fizesse. O que valia era a independência da cidade que nasci e não da minha família, que me criou livre. Em casa, não conheci a palavra repressão. Tudo era permitido, desde que não feríssemos aos outros e a nós mesmos.  Assim entrei no curso de Comunicação Social, opção Relações Públicas com a aprovação e respeito dos meus pais e quando fui convencida pela turma que eu passava minhas noites fazendo festas e trocando ideias a mudar para o Jornalismo, recebi o sim absoluto da família. Eu tinha a certeza que eu iria adentrar a uma profissão que, se levada à risca na ética e no tradicionalismo, é sacerdócio,  mesmo assim, fui. Sem medo. "Você não tem nada a ver com Relações Públicas. Vem pro jornalismo" diziam meus amigos, uns nove poetas, fotógrafos, sonhadores aos quais eu vivia grudada e os ouvia como se fossem deuses. A palavra deles tinha um sentido incrível e hoje sei que muito da não vasta cultura literária que tenho me foi introduzida por eles. De Gabriel Garcia Marques a Bukowski. Depois me soltei e achei meus escritores favoritos, mas aquela turma da faculdade mudou meu futuro. 
Voltei.
 Dentre os meus inúmeros assassinatos: ao me tornar jornalista, comecei a ser fuzilada. Fui morta ao perguntar a um bispo porque a igreja católica condenava o uso da camisinha,  embora eles tivessem inúmeros casos de HIV dentro das congregações. Fui assassinada por usar salto alto na redação e ter a humildade de deixar claro que eu precisava da ajuda dos meus colegas para desenvolver uma matéria sobre saúde e depois fui assassinada mais umas quatro ou cinco vezes por simplesmente discordar com o assédio de um chefe ou até mesmo por não direcionar a pauta como a pauteira do jornal queria. Sempre acreditei que o leitor merecia a verdade. Nunca o lixo dos interesses desse ou daquele grupo, por isso acabei me deixando outras vezes ser brutalmente assassinada. Me mataram recentemente para limpar a sujeira de uma administração vaidosa que, no afã de desenvolver uma rede de revistas, acabou dizimando mais outros 50 jornalistas. Me mataram por eu não ser ambiciosa ao ponto de mentir ter dons que não tenho. E seguem me matando por eu ser uma profissional que antes de ver os cifrões, não vende a alma para o diabo. Mas o mais impressionante é que quanto mais eu morro, mais eu nasço. O jornalista nasce para morrer mil vezes e renascer na resistência. Por isso JE SUIS CHARLIE baby e nada vai me matar a ponto de que eu não posso me levantar e continuar.   Europa, 
Texto escrito no trajeto entre Berlim e Paris. 
Imagem da capa da edição do jornal Charlie Hebdo lançado ontem aqui em Paris.


2 comentários:

Madi Muller disse...

Ana Clara,já gostava de ti antes,mas depois de ler esse texto, acho q vou me tornar devota!
Beijo da santanense pra bageense!

Adriano Gazoli disse...

Ana, Sua Linda, como ficou comum dizer aqui no Brasil...amo amo amo tuas palavras, acompanho o blog desde mais ou menos 2007, 2008, não tenho certeza, mas...sou todo gratidão pelos posts que me fizeram sonhar com o quê se faz em Paris quando o assunto é Haute Couture...e suas colocações, sempre felizes. Sucesso, SEMPRE. ;) <3

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