Diário de Paris+ a moda na minha vida...Histórias para contar...Louis Vuitton Celebrating Monogram Creative Story: Christian Louboutin by Gordon Von Steiner...


É madugada em Paris e eu me acordo para uma ataque de ideias que surgem sem dó e nem piedade. Tenho muitas ganas de dormir, mas não é por isso que vou deixar de abrir os olhos e começar a postar algo que me vem a mente exatamente nesse momento. Talvez essa inspiração não passe nunca mais por aqui. Provavelmente. A ideia é lembrar do passado para entender o hoje. Essa semana recebi uma mensagem aqui que não entendi bem o que foi escrito ( acho que faltou uma parte do texto na edição do anônimo que o publicou). Mas ele falava em oportunidades. Em alguém que está fora do Brasil e não percebeu as mudanças que aconteceram lá. Em alguém, no caso eu, que sempre teve oportuniadades. É quando eu lembro dessa foto. Eu sou a menina menor, agarrada num livrinho ao lado da irmã também agarrada no seu. Pois bem. Cresci numa casa longa que mais parecida uma tripa, como dizia meu pai, gaúcho de Bagé, interior do Rio Grande do Sul e fronteira com o Uruguai, lugar onde também nasci. Ali, no meio dessa imensa casa que quase atravessava um quarteirão em uma linha vertical, nasceram todas as minhas esperanças e referências que trago até hoje em algum ponto do meu caráter e no meu espírito. Minha mãe fazia nossas roupas. Como dá para ver, apesar de uma pequena diferença de idade, eu e Cármen, minha irmã mais velha, éramos vestidas iguais. Tecido comprado com as novidades da temporada e lá ia a mãe para a máquina nos presentear com seus modelos. Foram muitos. Inverno e verão. Tínhamos tudo que era moda feito com resignação por ela. Aqui um conjunto de saia e blusa. Me lembram muito as roupas da Isolda. Para mim são um resgate daquela época e eu confesso que não gostaria de voltar no tempo. Nem de esquecê-lo, apenas deixá-lo no lugar.  Vestíamos roupas feitas em casa porque meus pais eram professores. Pedagogia, Filosofia, Contabilidade. Essa era a realidade lá de casa. Não se falava em outra coisa a não ser estudos, contas, ideias de vida. Não tínhamos muito dinheiro. Eles eram professores. Dois intelectuais que se preocupavam em dar o melhor para os filhos. E o melhor eram os livros, a educação ( incluindo cursos de etiqueta, balé, inglês e o que precisasse para nos preparar para o mundo).  As oportunidades que tive? Foram essas. Uma família amorosa e dedicada ao saber. Nunca ganhei um carro de meu pai. Por filosofia mesmo. Ele achava que filhos deveriam ganhar educação, o que minha mãe veemente concordava. O resto era com a gente. Nunca fui a Disney com o grupo de amigas. Nunca ganhei joias caras por ter passado no vestibular. Vi meu pai inúmeras vezes discutir com minha mãe porque ele ajudava todos os necessitados e pedintes que passavam na nossa porta. No dia de sua morte, 28 de janeiro de 1992, pude ver o número de pessoas a quem ele amorosamente ajudou em vida. Escondia da mãe a caridade que fazia. Pagava caixões para mendigos não serem jogados em valas.  "Teu pai deu a primeira geladeira para minha filha poder montar a casa dela e se casar", disse emocionada com um bouquet de hortênsias lilás na mão, a primeira pessoa que entrou no velório, ao qual, eu, apesar de ser muito jovem, organizei. Então, minhas oportunidades foram seguir em frente uma educação e quase nada de grana no bolso. Trabalhei a vida toda e ainda trabalho muito para poder seguir meus sonhos. Um deles lançado como desafio pela minha mãe que até hoje não sabe porque falava isso: "minhas filhas foram criadas para Paris". Ela sentia, mas tenho certeza que não era uma ambição esnobe. Era apenas um feeling: eu, a mais fraquinha, aquela que por ser tão magra, tinha apelidos como "toco"ou "canarinho", quando usava um vestido amarelinho de renda feito por ela, poderia ser mais feliz e mais forte em Paris. Eu parecia de fato um pequeno pássaro de tão frágil que era. Tinha pesadelos, não comia e amava sim uma boa aventura embalada pelos livrinhos que ganhava e que eu dormia agarrada ( dá para ver na foto ao lado de um do Marco Aurélio, um dos sete tios, irmãos da mãe). Voava com eles. Nunca sonhei em vir para Paris, mas fiz a oportunidade acontecer trabalhando, projetando, passando cinco anos escrevendo e postando quase que diariamente e tentando sobreviver dignamente. Escolhi beber da fonte de liberdade que existe aqui. Se tive mais oportunidades do que outros? Claro, mas isso não me faz uma pessoa que não entenda o meu país. Isso não me desfaz como cidadã. Isso apenas me faz pensar nos caminhos que a gente escolhe. Me faz ter a certeza: mesmo na miséria ( às vezes estamos com a mente nesse estado), você pode levantar da sua cama e ir em busca de um trabalho, como tantos milhões de brasileiros fazem todos os dias. Sem medo de trabalhar, sem subterfúgios como sou pobre e nunca vou conseguir, por que sim a gente consegue, eu, você, o cara da esquina. Agora com discurso que discrimina, realmente o Brasil vai ficar dividido. Fui criada vendo meu pai, mesmo sem ter muito, ajudando os outros. Ele deu oportunidades. Eu tive as minhas. Eu busquei as minhas. E aqui estou. Ainda na luta, ainda pagando impostos no Brasil e ainda sendo merecedora de sonhar que o meu país vai ser mais justo com todos, pobres, classe média, ricos. Todos merecemos. Sem essa de não dividir, mas sem essa também de que devemos nos calar porque estamos em minoria. Sem essa mesmo.



Minhas inspirações da semana????

Amanhecer em Bercy. Foto tirada pelo meu celular e postada no Instagram @anagarmendia:






Uma cena simples da cidade. Banquinha de frutas numa esquina no Bairro Saint Germain.







Viram esse???




Voilà. Bonne nuit
Ana 

3 comentários:

Neuza Madalosso disse...

Ana Clara , day by day me encanto mais com você.
Que texto lindo.
E é como você diz; não é por estar em Paris que você não sabe o que acontece aqui.
Um governo que desgoverna , que finge que não sabe que para fazer o populismo ele precosa da classe que despreza.
Mas quero falar aqui de você, das mulheres fortes da tua familia , inteligentes e que vão á luta.
Parabéns!!!!!

Ana Adad disse...

Querida, que lindo transmitir de forma tão autêntica a simplicidade que te tornou autêntica! Amei! Grande beijo!

Analize Monteiro disse...

�� saudadesssss ��

LinkWithin

Posts relacionados