MODA Paris Alta-costura inverno 2006





Mente delirante de Galliano produz imagens incriveis para Dior


Ana Clara Garmendia
De Paris

Um mundo feminino dominado por mentes masculinas extraordinariamente afinadas com seus desejos e suas vontades mais profundas. A alta-costura, a fatia mais cara e mais exclusiva da moda, está com os dias contados hà muito tempo, mas continua rendendo imagens fantásticas graças ao talento de Karl Lagerfeld e Jonh Galliano. Ok, sabemos que existem vários outros nomes que participam das duas temporadas que acontecem por ano, Armani, Valentino, Lacroix, Gaultier, Saab, Sorbier, mas são as apresentações de Chanel, sob a regência de Lagerfeld, e Dior, aos cuidados alucinados de Galliano, que fazem o coração da gente acelerar.
Os shows da alta-costura movimentaram Paris no começo de julho. Os cenários escolhidos pelas duas grandes maisons foram locais no 16° arrondissement de Paris, proximidades do jardim de Bagatelle. Ali, em meio a clubes privados e centros de equitação, imprensa, celebridades (Cher, Liv Tyler, Drew Barrimore, Avril Lavigne etc...) e convidados veriam o que essas duas feras andaram aprontando para fazer mais uma vez o mercado aceitar que a alta-costura ainda tem um certo gás para continuar viva. Em meio a um escaldante sol de verão Dior com Jonh Galliano como mestre de verdadeiras obras de arte inspiradas em filmes que remetem ao inferno, à uma linda mulher da metade do século passado ou ainda em musas bem atuais com pintas de roqueiras ricas, mostrou sua nova coleção: é o planeta Botticelli que veio à tona. O cenário era como um jardim, atràs uma tela gigante que mudava a cada troca de tema da apresentação. A mente delirante de Galliano leva todo mundo ao espanto. O inglês é talentoso, excêntrico, iconoclasta, dândi, narcisista e provocador. Atributos que poderiam encrenca-lo junto ao pesado mundo de business que envolve a alta criação da Dior, mas, ao contrário, o levam a se superar e a surpreender: ao mesmo tempo que os convites para a coleção alta-costura estavam sendo distribuídos no começo de julho, os jornalistas que moram em Paris foram chamados para dar uma passadinha na avenue Montaigne e conhecer a coleção Cruiser criada por ele. O tema? "Less is more", menos é mais numa tendência de oferecer algo diferente às consumidoras. A limpeza da Cruise ( proposta também por Chanel e Lanvin) impressiona. “O ponto de partida foi o movimento Modernista, em particular a escola de arte Bauhaus” anunciou John Galliano ao mostrar o outro lado da moeda da grande grife. A coleção Cruise foi mostrada recentemente em Nova York e representa o que? Que a moda quer também roupas mais simples de usar. A "Modernidade e Criatividade – pura e simples sofisticação" anunciada pela Dior dà o tom dos diferentes caminhos que o mercado tem. "Jaquetas desestruturadas, jeans brilhantes, vestidos para cocktail e para noite em tecidos metálicos, jerseys laqueados usados com couro metálico. As cores cinza , prata, dourado pálido acentuados pelas cores de aspargos, menta, azul pálido e coral", diz Dior.


Alta-costura com dias contados?


Essa desviada coordenada por Galliano faz um grande contraponto, mas não tira a referência profunda de pesquisa do trabalho do criador. Voltando ao momento da alta-costura o que são os vestidos cheios de referências históricas? E o que são as viagens conceituais feitas por um estudioso? As roupas mostradas na badalada apresentação, com mais de 200 pessoas somente no backstage para ver e pararicar Galliano vestido de astronauta são como matrizes, como valiosas telas a óleo que, pouco a pouco, dentro dos escritórios de desenho e núcleos de criação da grife vão se desdobrar em outras tantas coleções. De um suntuoso bordado numa manga podem nascer simples camisetas com o mesmo trabalho. De uma saia longa e rebuscada podem sair várias outras bem menos trabalhadas para as coleções prêt-à-porter que vão ser apresentadas em outubro próximo. Jà que a alta-costura não rende como deveria tendo atualmente algo em torno de duas mil milionárias esparramadas pelo mundo para consumi-la por que não desdobrà-la? É por isso que ela ainda sobrevive com momentos de rara beleza. E gera milhões. Um boletim divulgado no final de julho pela LVMH anuncia: dos 7,289 milhões de euros faturados pelo grupo até junho deste ano 329 vem da Christian Dior Couture.




De um outro lado desse momento brilhante e histórico da alta-costura está monsieur Karl Lagerfeld. Somente os dois protagonizam espetàculos. São estrelas máximas que, ao saírem de cena, até o presente momento tudo indica: não deixarão herdeiros. As previsões jà estão feitas. Se Lagerfeld trabalhar até quando seu contrato com a famìlia Wertheimer està assinado, ou seja, por mais sete anos, ele chegará aos 80 anos. E se Galliano ( nascido em Gibraltar em 1960) renovar com a LVMH Moet Hennessy Louis Vuitton de Bernard Arnaud vai passar dos 50. Previsões que sò confirmam que a alta-costura está com os dias contados, mas não vai desaparecer enquanto essas duas figuras excêntricas e geniais continuarem na ativa. E que ação. Lagerfeld, apesar de não pirar na mesma intensidade de Galliano, é capaz de fazer coisas incríveis. A imensa tenda branca da entrada anunciava um desfile instigante. Em formato de círculos os convidados eram sentados de forma que a passarela ficasse em torno da gente. No final viria a surpresa. O miolo, onde estávamos, giraria e poderíamos ver todos os looks e o próprio Lagerfeld dando tchauzinho. Havia várias portas e em cada uma delas uma modelo.





As propostas de Lagerfeld? O estilo menina de botas de cano alto com vestidos curtos e luvas bordadas encanta. Suas botas, agora na grande maioria em jeans que chegam até a confundir a gente por parecer uma bota-calça, foram feitas pelo fazedor de sapatos Massaro e ficaram incríveis. Com seus saltos bordados e muitas delas com os canos também, as peças jà são um ícone Chanel. Nada mal para um senhor de 73 anos que odeia ficar gordo para não desagradar a mãe e que é um grande gozador quando trata com a imprensa. Além do mais Lagerfeld jà superou de longe seu grande desafeto Yves Saint Laurent ( eles eram amigos íntimos. Dizem que Laurent abriu uma loja onde Lagerfeld queria, num lugar privilegiado de Paris, por esse motivo, depois de uma amizade de 2O anos os dois jà não se falam mais hà 30, segundo declarações à mídia francesa feita pelo próprio Karl). YSL? Dele se sabe que não passa bem de saúde, mas sua grife anda bem apagada por falta logicamente de um grande criador que faça a marca continuar a protagonizar espetáculos. Foi Laurent quem começou com eles. Foi ele quem vestiu pela primeira vez uma mulher com um blusão preto. Foi ele também quem colocou transparência nelas e foi ele quem inventou o vestido-trapézio em 1958, traçando uma ruptura entre a mulher e os incômodos corsets no período pòs-guerra. Bem, mas monsieur Karl Lagerfeld, um afinado alemão que se considera um "europeu" antes de qualquer coisa debocha hoje do ex-amigo. Acha um horror os smokings propostos pelo ex-amigo que se tornaram uma marca YSL e os ombros largos e pesados propostos pela grife. "As lésbicas da década de 20 jà usavam smokings", envenena ele.
Depois desses dois hà outros bons momentos dentro da alta-costura, mas nada genial. As bem-feitas e elegantíssimas roupas de Elie Saab. Repetitivas na criação de Christian Lacroix e sem graça nas de Giorgio Armani. Hà ainda os novos costureiros como os portugueses da Story Taylor, o lado alternativo da alta-costura e bem interessante até, mas nada, nada mesmo pode ser comparado aos magníficos momentos protagonizados por Galliano e Lagerfeld para Dior e Chanel.

MAIS SOBRE
Lagerfeld não é là muito a fim da alta-costura. Ele declarou que acha um horror os vestidos "bimbo" e "putanas" usados nos tapetes vermelhos. Por isso mesmo faz um alta-costura diferente.

Ele diz também que as roupas são inviáveis até mesmo para os mais ricos, não tanto hoje pelo dinheiro, algo em torno de 100 mil euros um vestido, porque ainda existem grandes fortunas para pagar a conta, mas mais pela falta de praticidade que essas peças têm. Roupas que demandam um trabalho preciso e demorado nas suas provas para que fiquem realmente perfeitas. Um entrave resolvido pela evolução do prêt-à-porter. Hoje encontram-se roupas preciosíssimas sem que se precise encomendà-las.

Se Galliano não fosse tão excepcional no que faz teria seu cargo ameaçado. Heidi Slimane, estilista da Dior Homme, revolucionou o conceito da grife e é louco para fazer a parte feminina. Jà fez inclusive um vestido para Nicole Kidman.

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